14 de agosto de 2017

O CHAPÉU E O CHICOTE



Desde criança ela via o homem como um ser extraordinário. Já na primeira infância era assim. Com pouco mais de sete anos, foi levada pelos pais para passar parte das férias na casa de uns primos de sua mãe. Foi uma sequência de descobertas que influenciaram definitivamente sua visão sobre o homem e a mulher.

Eles eram um casal de meia idade, com cinco filhos entre oito e 15 anos, uma menina e quatro meninos. Moravam em uma bela casa de grades brancas, retirada da rua e cercada por jardins. Tudo muito alegre e bonito. Uma coisa em especial, chamava sua atenção: na parte interna da porta da cozinha havia pendurados dois objetos singulares: Um chapéu e um chicote.

Sempre muito curiosa, perguntou à tia (era assim que ela os chamava: tio e tia):

_O que é isto, por que essas coisas penduradas aí?_E a tia, com uma expressão que ela não conseguiu desvendar:

_Ah... Pergunta seu tio quando ele chegar do trabalho, ele que entende dessas coisas e vai te explicar tudinho._disse mantendo uma expressão que parecia ser de irritação.

Naquela tarde, o tempo pareceu não passar.. A menina não sabia explicar o porquê de tanta ansiedade com a espera do tio. Mas, se nem os adultos conseguiam controlar e explicar suas emoções, como uma menina poderia conseguir?

À noite chegou e pegou Agnes, era este seu nome, de um jeito que nem ela conhecia. Ouviu quando o tio abriu o portão da garagem e correu para ele. Satisfeito com a demonstração de interesse da garota com sua chegada, afagou seus longos cabelos e perguntou com voz grave e baixa:

_Quer guardar o carro na garagem comigo, Agnes?

_Quero! Quero sim, titio!!!_respondeu ela alegre e quase estridente. E estendeu a mão para que ele a tomasse na sua.

Quando ele fechou os dedos em volta dos dela pode senti-los trêmulos. Apertou-os com carinho, percebeu seu aquietamento e sorriu satisfeito por ter acertado em sua intuição.

Ele era um homem alto, magro, com o corpo desenhado por músculos fortes, musculatura trabalhada ao longo dos anos ao treinar homens de varias idades na  "Luta Livre", a novidade do momento, e o outras artes marciais.
Apesar do contato com lutas, ele não era um homem rude. Inteligente, de boa cultura e sensível, sabia como poucos, desvendar os desejos das mulheres em todas as idades... Até os de uma menina com pouco mais de oito anos.

Carro guardado na garagem, entraram na casa pela porta da cozinha que, ao ser fechada, exibiu o motivo de toda a curiosidade da menina. Lá estavam o chapéu e o chicote que tanto a inquietavam e, de pronto, ela perguntou:

_Titio, por que o Senhor pendurou isto atrás da porta?

Ele fechou rápido a porta da geladeira e olhou pra ela satisfeito. Lembrou quando seus filhos irritados tinham feito a mesma pergunta e, cheio de si, respondeu à menina com outra pergunta:

_O chapéu e o chicote?_Ela balançou a cabeça afirmativamente e ele continuou:

_O chapéu é para que todos saibam que nesta casa tem um HOMEM e é ELE quem manda. Tudo que aqui acontece é por decisão minha. Claro que, antes de decidir, eu penso muito e só aí determino o que fazer e como. 

Dito isto, fixou o olhar na menina, esperando talvez algum esboçar negativo em sua expressão, mas ela sorriu tão tranquila quanto antes. E ele continuou:

_Ah... menininha esperta... Tão pequenina e já sabe o que é certo... Agora, você deve imaginar o porquê do chicote, não?

E ela, firme como uma rocha, satisfeita como quem tivesse recebido um prêmio por provar sua argúcia, respondeu:

_Quem desobedecer vai levar uma chicotada, né titio???

_Vai desobedecer, Agnes?

_Eu não! Vou fazer tudo o que você mandar.

Uma gargalhada sonora invadiu não só a cozinha, mas toda a casa. Ribombou as paredes, estremeceu os vidros e assustou a todos. Menos ela, a casta e pura Agnes, que não só considerou tudo muito justo, como manteve no rosto o mais cálido sorriso de aprovação.

_Boa menina!!! Vem para o colo do tio. _Pegou a menina ao colo e a levou para assistir televisão.

Naquela noite, por decisão de quem mandava naquela casa, todos foram para a cama mais cedo. Agnes rolou na cama, inquieta, sem conseguir dormir. Onde estaria seu sono? 
Quando finalmente adormeceu, sonhou com um homem alto, magro, que no escuro profundo da madrugada entrava no quarto e parava diante de sua cama. 
Ela dormia de bruços e sentiu quando uma mão forte e macia acariciou suas costas e, se enfiando sorrateira pelo elástico da calça do pijama, parou sobre suas nádegas pequeninas.

Cerca de duas décadas depois daquela madrugada, quando por acaso se encontraram sozinhos numa oficina mecânica, as sensações vividas naquela madrugada, jamais esquecidas, foram lembradas rapidamente e com tal intensidade que foi impossível freia-las... No dia seguinte, Agnes e o tio colocaram um fim na espera de anos. 


{W_[Amar Yasmine]}

9 de agosto de 2017

SALÓ - OS 120 DIAS DE SODOMA


O belo, sensível e competentíssimo Pier Paolo Pasolini, na minha opinião um dos maiores cineastas de todos os tempos, teve um olhar bem lúcido sobre a obra do pensador aristocrata Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês.

Quando se fala em Marquês de Sade, normalmente as pessoas fazem uma ligação imediata com o sexo. Infelizmente, há quem o tenha lido e sequer percebido que o que ele quis nos mostrar são as verdadeiras sujeiras humanas: a maldade, a opressão, a injustiça, o preconceito, mazelas que o animal humano vive e em seguida varre pra debaixo do tapete. 


Quando "Saló - Os 120 Dias de Sodoma" esteve nos circuitos de cinema em BH eu quis muito assistir, mas estava grávida e meus amigos me impediram sob a alegação de que não seria benéfico para o bebê. Pronto, falou que alguma coisa poderia prejudicar meu bebê e eu logo desisti da ideia. Levianamente, neste caso, porque jamais lera um dos textos de Sade e não sabia do que se tratava. Mas, estava escrito que um dia eu assistiria o filme e isto aconteceu quando, há cinco anos, ganhei de uma amiga uma cópia e guardei para saborear num momento oportuno. 


O filme foi inspirado no livro "Os 120 Dias de Sodoma", de Sade, e conta a história de um grupo de jovens que sofre uma série de torturas feitas por quatro altos dignitários fascistas: Um Duque representando a nobreza, um Bispo como a igreja, um Chefe de Estado personificando o poder político e um Magistrado como a corrupção e a parcialidade da justiça.

Saló, uma comunidade italiana da região da Lombardia, província de Bréscia, foi o cenário escolhido.
Fundada no período romano como Pagus Salodium, na Idade Média tornou-se parte dos domínios da família milanesa Visconti e, a partir de 1440, ficou sob controlo da República de Veneza.
Entre 1943 e 1945 Saló foi a capital do estado-fantoche de Mussolini apoiado pelos nazistas, a dita República Social Italiana, também conhecida como República de Saló. 

Além dos dezesseis exemplares perfeitos de jovens, os fascistas levam junto guardas e agentes para um palácio perto de Marzabotto. Levam também quatro mulheres de meia-idade: três delas cantam histórias enquanto a quarta as acompanha ao piano. As músicas são em grande parte baseadas nas histórias de Dante e Sade dividindo o filme em três ciclos: O Ciclo das Manias, o Ciclo da Merda e o Ciclo do Sangue.



Os Senhores coordenam a operação de recolha das vítimas; jovens de ambos os sexos na flor da idade, que serão levados para a mansão onde acontecerão as orgias.
Os ciclos da vida, e do sexo associado à alegria, são expressamente rejeitados por Pasolini, que assim compõe um filme em ruptura com ele próprio. Um filme sobre ciclos também, mas desta feita sobre ciclos de morte. 

Transpondo "Os 120 Dias de Sodoma" para os últimos dias da ditadura fascista italiana, "Saló" não podia deixar de ser um filme violento, atroz, repulsivo. Porque é do que trata Pasolini em sua obra final: o fascismo. Violento, atroz e repulsivo, o sexo é agora um castigo; uma introdução às torturas finais, de que são merecedores todos aqueles que mereceram uma referência no livrinho de apontamentos dos detentores do poder. 

O fascismo é explorado em todas as vertentes possíveis. O espaço fechado da mansão, a lei escrita - e reescrita - a bel-prazer pelos Senhores, o domínio absoluto sobre o "povo", a exigência total da conformidade dos comportamentos aos desejos dos dominadores, a censura, a denúncia e o colaboracionismo. Quanto à censura, não deixa de ser curioso - e por outro lado, algo óbvio - que a forma com que Pasolini fez revestir o filme tenha despertado tais ódios e perseguições, de pessoas que quiseram proibir exibições e até destruir negativos. Ainda hoje "Saló" é proibido em alguns países. 

Um dos terrores é a nossa incapacidade de resistência à opressão e ao terror do domínio total do regime, que nos leva a ceder e a tornar-nos parte. A fuga ao pesadelo passa pela denúncia do vizinho, que é reconhecida e estimulada pelos Senhores. A sequência das denúncias no filme leva o espectador ao riso, e, no entanto, será das sequências menos caricaturais. É a partir daqui que se escolhem os eleitos, aqueles que serão levados para "Saló". Os que olharam o abismo e a quem o abismo devolveu o olhar. 

No fundo, as atrozes orgias, poderiam não passar de um concurso, cujo prêmio são "umas férias de sonho", algures, ligeiramente mais atroz daqueles que o regime nos oferece, mas em que ainda podemos rejeitar a participação. Simplesmente, as humilhações que se sofrem e as coisas que se comem, não são a troco da sobrevivência, mas de 15 ou 20 contos e de um reconhecimento público. 

Um dos filmes mais chocantes da história do cinema, esta característica cinematográfica foi feita aos poderes dominantes da Itália em uma catarse explícita e incômoda que vai muito além do campo das idéias, o impacto também é sentido no estômago. Realizado em 1975, por um agressivo Pier Paolo Passolini, Saló faz alegoria com a e história de vários jovens que sofrem o diabo nas mãos do poder. 


A partir de pesquisas em:

Adoro Cinema

Wikipédia



{W_[Amar Yasmine]}