27 de julho de 2017

ERA UMA VEZ UM GUETO

Dinossauros, uma espécie em extinção?

Quem acompanha o BDSM nas atuais redes sociais, que antes se restringiam às salas de bate papo do Terra, do UOL, as  listas do Yahoo, ou do Google, sabe que de vez em quando, aparecem divergências decorrentes das diferenças de opinião. São fatos, digamos..., sazonais, uma vez que voltam à tona de tempos em tempos.
O BDSM não é uma atividade monolítica em comportamentos e entendimentos. É plural e de certa forma mutável, mas sem perder a sua essência.


A partir dos escritos de Masoch e posteriormente Sade, surgiu o S&M, que evoluiu para o atual BDSM agregando outras nuances de comportamento e consequentemente de entendimento (se alguém souber quando isso aconteceu, por favor, informe). Aí surgiu o D/s, mas não bastava haver somente Tops e bottons para identificar posições/comportamentos, havia uma mescla destes, inicialmente ainda não classificada, que chamamos Switcher... , e tantas outras denominações foram criadas, por uma real necessidade, ou até por mero sofisma. Ainda assim e mais uma vez, a essência original permaneceu preservada.



Discutem-se assuntos diversos, como a questão SSC x RACK, o empréstimo de escravos (as), o BDSM sem sexo, BDSM e idade, a quase esquecida Ética BDSM, as posturas, etc. Discutimos até se a Podolatria é, ou não BDSM, e como não poderia faltar, discute-se a Liturgia; se o termo é, ou não aplicável no contexto BDSM, além das suas variações.

“Entendo que a Podolatria é uma prática fetichista que considero como expressão do BDSM, desde que no contexto D/s. Somente desta forma.
Quanto à Liturgia, ainda que tal palavra esteja arraigada como um jargão, digo que não me importa o nome que se de para a vaca (Liturgia, ou Protocolo), contanto que esta vaca de o leite; isto não descaracteriza em nada a prática do BDSM, nem fere preceitos. Respeito a quem utilize qualquer terminologia, desde que não descaracterize os princípios básicos. Muitas das discussões que vemos, são inócuas e acabam desaguando num mar de nada, configuram apenas um choque de “subjetividades frívolas” sem o menor senso prático; é como trocar seis por meia dúzia, pois se fala muito e chega-se a lugar nenhum".

Apesar disto, este bá blá blá, por vezes improdutivo, pode ser até saudável, aprende-se com as discussões e com a opinião alheia. O ideal seria que isso acontecesse numa ótica construtiva e de egos desarmados, algo que efetivamente agregasse, o que nem sempre ocorre. Por isso prefiro apenas observar e curtir os palpites de cada um. Tenho as minhas convicções, mas respeito a todos.
Nesta torre de Babel em que o BDSM se transformou, há uma questão que, de certa forma, apresenta-se com uma ênfase bem significativa, às vezes polarizando o nosso tão diverso meio. A questão do antigo e o novo; algo como Dinossauros VS teen age.
Isto nos remete ao choque entre um BDSM mais arraigado às tradições (para muitos, desnecessárias), com um novo segmento, bem mais “despojado”. Digamos algo mais espartano, em relação ao tradicional.
Muito do que era quase um padrão de comportamento e posturas vem se perdendo com o tempo. O problema não é a mudança em si, mas sim o esquecimento de quem um dia assim fez e o consequente desconhecimento por parte dos mais novos. Assim cria-se um hiato de conhecimento sobre como era o contexto BDSM e como é agora. Como alguém recém-chegado no BDSM pode desejar seguir um padrão mais tradicional, sem ter acesso a qualquer informação a respeito?
Conheço várias pessoas, no âmbito dos mais novos, que de alguma forma conheceram curtem este lado mais tradicional, com as Cerimônias, posturas, os códigos e tudo mais.


Isto não significa que um lado seja melhor do que o outro, são apenas formas distintas de entender e praticar o BDSM, o que não implica em desconhecer. O que realmente é o BDSM?
É neste ponto que se corre o risco de perder a essência e se descaracterizar o BDSM, transformando tudo numa simples versão diferente de sexo.
Antigamente era vedado às submissas tocar o corpo de seus Donos, nas plays a atitude correta era ser o mais discreta possível e dirigir-se somente ao Dono. Qualquer outra coisa, como falar e até um simples ir ao banheiro, só acontecia mediante uma autorização.
Hoje estamos perdendo a noção do que realmente significa “ser submissa (o)”. Submissa (o), no sentido original, não tem qualquer autonomia e muito menos contesta as decisões de quem lhe possui. Se assim age, que se invente outra nomenclatura para este comportamento. Não critico a ação, mas sim a definição.
Escrava (o) encoleirada (o), ou mesmo em negociação, era sempre respeitada (o) como propriedade de alguém, portanto intocável e “inassediável”. Além disso, os encoleirados não entravam em polêmicas, não discutiam, pois a coleira é a presença do Top e a este representa. Então, quem portava uma coleira sabia que representava um Domínio, uma Casa, um Top. Isto era motivo de orgulho, exaltação e respeito, porque o respeito é você quem faz e impõe, independentemente da sua posição. Então, a postura era primordial tanto para quanto para Tops, Switchers, e principalmente para os bottons. Havia sempre um grande senso de formalidade e elegância, que eram importantes fatores de “valorização”. As coisas não se restringiam somente à estética do corpo, especialmente para os bottons, então aquela turma que adora “fazer barraco”, era quase sempre preterida. Hoje tudo isso está num segundo plano, basta uma “voltinha” pelas redes sociais para constatar quão significativo é o fenômeno do esquecimento.


Por diversos motivos que não vale a pena citar, mas principalmente pela disseminação do assunto BDSM na mídia, há muito mais gente nova do que antiga no BDSM. Em qualquer setor da atividade humana sempre há e haverá a renovação, aqui não seria diferente Muitos dos Dinossauros de certa forma desapareceram; alguns realmente abandonaram o barco, mas há muitos que ainda estão na ativa, porém fora das redes sociais. Portanto, invisíveis.
É como se formassem guetos. É simples, já que o BDSM saiu do gueto, faz-se um novo gueto BDSM! Um gueto em que se preservem as ideias e os ideais BDSM!
Dinossauros não são exatamente as pessoas mais antigas, são na verdade, as ideias e o estilo que praticam, independentemente deste “sentido etário” que tanto apregoam.

Certos Princípios e Valores do BDSM estão sendo lentamente esquecidos. São diluídos, como se a cada dia pingasse mais uma gota da água do pragmatismo, que ao fim de algum tempo simplesmente apaga a essência... Descaracteriza mais que um movimento, uma subcultura*.
O problema é que no Brasil a grande maioria dos adeptos não entende o BDSM como uma subcultura. BDSM é muito mais do que uma simples prática de fetiches!

Sinceramente, penso que lidar com o BDSM significa, principalmente, lidar com nossa parte emocional, a parte física é apenas um meio utilizado para alcançar um propósito bem mais complexo. Só aqui, no mundo dessas quatro letras mágicas, podemos ser Donos de alguém e ter poderes irrestritos sobre cadelas e felinas humanas, escravas (os) e eunucos servis. Somente aqui há masmorras sombrias e Domínios onde a Dor e o Prazer se misturam em perfeita harmonia. Então quanto mais ingredientes você coloca nesta receita, neste caldeirão de bruxa, melhor e mais intenso será o resultado.
Conserve a sua essência!


* particularidades culturais de um grupo que se dista, ou diverge do modo de vida predominante, porém sem se desprender dele. 



Werther von AY erschaffen


16 de julho de 2017

A SANIDADE NA RELAÇÃO


Normalmente falamos muito sobre o SSC e as possíveis desagradáveis consequências para quem não se pauta por tal princípio; mas quando citamos estas letrinhas, nem sempre temos a real amplitude do seu significado. Para muitos o SSC restringe-se apenas à integridade física e a traumas emocionais profundos.
Há, entretanto, certas situações que se enquadram perfeitamente neste contexto apesar de nem sempre percebermos, talvez por serem mais abrangentes, o que as torna menos visíveis, ou palpáveis.
Poderíamos chamar de “o SSC da relação, do contexto, ou o lado light” do SSC.
Viver fetiches é uma questão de escolhas, aliás tudo na nossa vida passa por este “fazer escolhas”, o problema nem sempre está nestas, mas sim nas consequências daquilo que escolhemos fazer. A partir da escolha vivemos pelo menos três momentos distintos - o antes pode ser muito imaginativo e excitante, o durante pode ser realizador, e o depois pode ser bom, mas pode também significar algumas situações bastante desagradáveis...
Nem todo mundo responde da mesma forma às diversas práticas do BDSM, independentemente da posição assumida.
Há pouco tempo conversei com um casal de amigos, ele tinha um fetiche de voyeurismo e com o tempo começou a alimentar a ideia do Cuckold. Conversaram e como ela queria proporcionar a ele este prazer, partiram para a ação. Assim fizeram, mas depois disso ele passou a ter crises de ciúmes, a “Cornitude” passou a ser um peso para ele e o convívio entre os dois tornou-se bastante difícil. Durante um bom tempo ele não mais conseguia sequer beijar a namorada.


Tudo pode ser possível, mas nem tudo é aconselhável, especificamente em práticas que envolvam a degradação (Humilhação), ou aquelas que possam de alguma forma aludir a este sentimento. No caso em questão o feitiço virou contra o feiticeiro.
Alguém certamente dirá que isso é uma grande bobagem, mas a verdade é que isso acontece e quase acabou com uma relação até então “bem alicerçada” e longa.
Não basta ter a cumplicidade de fazer, é necessário ter uma cumplicidade de entendimentos, e entender a si em primeiro lugar.
Nessa brincadeira de adultos que vivemos é muito mais comum do que se pensa o fato de alguém estragar  (não exatamente lesionar) o seu brinquedo. Nem todo homem reage da forma imaginada quando o assunto é Strapon; dependendo da situação, isso pode funcionar como forma de humilhação, ou até como um prêmio. Para alguns homens o uso do Strapon pode ser altamente excitante, enquanto para outros algo momentaneamente broxante. Há também os que se veem irremediavelmente feridos em sua masculinidade e carregam este ônus por toda uma vida.


O empréstimo de escravas (os), nem sempre é possível, então, quando não devidamente abordado e trabalhado “haja empatia nestas horas” também pode colocar em risco o equilíbrio de uma relação.
Tudo tem lá as suas consequências, então tudo há de ser pensado, principalmente o depois. Inserir alguma prática nova na relação, por mais inofensiva que possa parecer, será sempre um passo no escuro.
Se você não tem uma “cabeça aberta”, principalmente para entender como pensa o outro lado, então não desça para brincar no playground... Mas, se descer, pense!


Werther von AY erschaffen