14 de agosto de 2017

O CHAPÉU E O CHICOTE



Desde criança ela via o homem como um ser extraordinário. Já na primeira infância era assim. Com pouco mais de sete anos, foi levada pelos pais para passar parte das férias na casa de uns primos de sua mãe. Foi uma sequência de descobertas que influenciaram definitivamente sua visão sobre o homem e a mulher.

Eles eram um casal de meia idade, com cinco filhos entre oito e 15 anos, uma menina e quatro meninos. Moravam em uma bela casa de grades brancas, retirada da rua e cercada por jardins. Tudo muito alegre e bonito. Uma coisa em especial, chamava sua atenção: na parte interna da porta da cozinha havia pendurados dois objetos singulares: Um chapéu e um chicote.

Sempre muito curiosa, perguntou à tia (era assim que ela os chamava: tio e tia):

_O que é isto, por que essas coisas penduradas aí?_E a tia, com uma expressão que ela não conseguiu desvendar:

_Ah... Pergunta seu tio quando ele chegar do trabalho, ele que entende dessas coisas e vai te explicar tudinho._disse mantendo uma expressão que parecia ser de irritação.

Naquela tarde, o tempo pareceu não passar.. A menina não sabia explicar o porquê de tanta ansiedade com a espera do tio. Mas, se nem os adultos conseguiam controlar e explicar suas emoções, como uma menina poderia conseguir?

À noite chegou e pegou Agnes, era este seu nome, de um jeito que nem ela conhecia. Ouviu quando o tio abriu o portão da garagem e correu para ele. Satisfeito com a demonstração de interesse da garota com sua chegada, afagou seus longos cabelos e perguntou com voz grave e baixa:

_Quer guardar o carro na garagem comigo, Agnes?

_Quero! Quero sim, titio!!!_respondeu ela alegre e quase estridente. E estendeu a mão para que ele a tomasse na sua.

Quando ele fechou os dedos em volta dos dela pode senti-los trêmulos. Apertou-os com carinho, percebeu seu aquietamento e sorriu satisfeito por ter acertado em sua intuição.

Ele era um homem alto, magro, com o corpo desenhado por músculos fortes, musculatura trabalhada ao longo dos anos ao treinar homens de varias idades na  "Luta Livre", a novidade do momento, e o outras artes marciais.
Apesar do contato com lutas, ele não era um homem rude. Inteligente, de boa cultura e sensível, sabia como poucos, desvendar os desejos das mulheres em todas as idades... Até os de uma menina com pouco mais de oito anos.

Carro guardado na garagem, entraram na casa pela porta da cozinha que, ao ser fechada, exibiu o motivo de toda a curiosidade da menina. Lá estavam o chapéu e o chicote que tanto a inquietavam e, de pronto, ela perguntou:

_Titio, por que o Senhor pendurou isto atrás da porta?

Ele fechou rápido a porta da geladeira e olhou pra ela satisfeito. Lembrou quando seus filhos irritados tinham feito a mesma pergunta e, cheio de si, respondeu à menina com outra pergunta:

_O chapéu e o chicote?_Ela balançou a cabeça afirmativamente e ele continuou:

_O chapéu é para que todos saibam que nesta casa tem um HOMEM e é ELE quem manda. Tudo que aqui acontece é por decisão minha. Claro que, antes de decidir, eu penso muito e só aí determino o que fazer e como. 

Dito isto, fixou o olhar na menina, esperando talvez algum esboçar negativo em sua expressão, mas ela sorriu tão tranquila quanto antes. E ele continuou:

_Ah... menininha esperta... Tão pequenina e já sabe o que é certo... Agora, você deve imaginar o porquê do chicote, não?

E ela, firme como uma rocha, satisfeita como quem tivesse recebido um prêmio por provar sua argúcia, respondeu:

_Quem desobedecer vai levar uma chicotada, né titio???

_Vai desobedecer, Agnes?

_Eu não! Vou fazer tudo o que você mandar.

Uma gargalhada sonora invadiu não só a cozinha, mas toda a casa. Ribombou as paredes, estremeceu os vidros e assustou a todos. Menos ela, a casta e pura Agnes, que não só considerou tudo muito justo, como manteve no rosto o mais cálido sorriso de aprovação.

_Boa menina!!! Vem para o colo do tio. _Pegou a menina ao colo e a levou para assistir televisão.

Naquela noite, por decisão de quem mandava naquela casa, todos foram para a cama mais cedo. Agnes rolou na cama, inquieta, sem conseguir dormir. Onde estaria seu sono? 
Quando finalmente adormeceu, sonhou com um homem alto, magro, que no escuro profundo da madrugada entrava no quarto e parava diante de sua cama. 
Ela dormia de bruços e sentiu quando uma mão forte e macia acariciou suas costas e, se enfiando sorrateira pelo elástico da calça do pijama, parou sobre suas nádegas pequeninas.

Cerca de duas décadas depois daquela madrugada, quando por acaso se encontraram sozinhos numa oficina mecânica, as sensações vividas naquela madrugada, jamais esquecidas, foram lembradas rapidamente e com tal intensidade que foi impossível freia-las... No dia seguinte, Agnes e o tio colocaram um fim na espera de anos. 


{W_[Amar Yasmine]}

9 de agosto de 2017

SALÓ - OS 120 DIAS DE SODOMA


O belo, sensível e competentíssimo Pier Paolo Pasolini, na minha opinião um dos maiores cineastas de todos os tempos, teve um olhar bem lúcido sobre a obra do pensador aristocrata Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês.

Quando se fala em Marquês de Sade, normalmente as pessoas fazem uma ligação imediata com o sexo. Infelizmente, há quem o tenha lido e sequer percebido que o que ele quis nos mostrar são as verdadeiras sujeiras humanas: a maldade, a opressão, a injustiça, o preconceito, mazelas que o animal humano vive e em seguida varre pra debaixo do tapete. 


Quando "Saló - Os 120 Dias de Sodoma" esteve nos circuitos de cinema em BH eu quis muito assistir, mas estava grávida e meus amigos me impediram sob a alegação de que não seria benéfico para o bebê. Pronto, falou que alguma coisa poderia prejudicar meu bebê e eu logo desisti da ideia. Levianamente, neste caso, porque jamais lera um dos textos de Sade e não sabia do que se tratava. Mas, estava escrito que um dia eu assistiria o filme e isto aconteceu quando, há cinco anos, ganhei de uma amiga uma cópia e guardei para saborear num momento oportuno. 


O filme foi inspirado no livro "Os 120 Dias de Sodoma", de Sade, e conta a história de um grupo de jovens que sofre uma série de torturas feitas por quatro altos dignitários fascistas: Um Duque representando a nobreza, um Bispo como a igreja, um Chefe de Estado personificando o poder político e um Magistrado como a corrupção e a parcialidade da justiça.

Saló, uma comunidade italiana da região da Lombardia, província de Bréscia, foi o cenário escolhido.
Fundada no período romano como Pagus Salodium, na Idade Média tornou-se parte dos domínios da família milanesa Visconti e, a partir de 1440, ficou sob controlo da República de Veneza.
Entre 1943 e 1945 Saló foi a capital do estado-fantoche de Mussolini apoiado pelos nazistas, a dita República Social Italiana, também conhecida como República de Saló. 

Além dos dezesseis exemplares perfeitos de jovens, os fascistas levam junto guardas e agentes para um palácio perto de Marzabotto. Levam também quatro mulheres de meia-idade: três delas cantam histórias enquanto a quarta as acompanha ao piano. As músicas são em grande parte baseadas nas histórias de Dante e Sade dividindo o filme em três ciclos: O Ciclo das Manias, o Ciclo da Merda e o Ciclo do Sangue.



Os Senhores coordenam a operação de recolha das vítimas; jovens de ambos os sexos na flor da idade, que serão levados para a mansão onde acontecerão as orgias.
Os ciclos da vida, e do sexo associado à alegria, são expressamente rejeitados por Pasolini, que assim compõe um filme em ruptura com ele próprio. Um filme sobre ciclos também, mas desta feita sobre ciclos de morte. 

Transpondo "Os 120 Dias de Sodoma" para os últimos dias da ditadura fascista italiana, "Saló" não podia deixar de ser um filme violento, atroz, repulsivo. Porque é do que trata Pasolini em sua obra final: o fascismo. Violento, atroz e repulsivo, o sexo é agora um castigo; uma introdução às torturas finais, de que são merecedores todos aqueles que mereceram uma referência no livrinho de apontamentos dos detentores do poder. 

O fascismo é explorado em todas as vertentes possíveis. O espaço fechado da mansão, a lei escrita - e reescrita - a bel-prazer pelos Senhores, o domínio absoluto sobre o "povo", a exigência total da conformidade dos comportamentos aos desejos dos dominadores, a censura, a denúncia e o colaboracionismo. Quanto à censura, não deixa de ser curioso - e por outro lado, algo óbvio - que a forma com que Pasolini fez revestir o filme tenha despertado tais ódios e perseguições, de pessoas que quiseram proibir exibições e até destruir negativos. Ainda hoje "Saló" é proibido em alguns países. 

Um dos terrores é a nossa incapacidade de resistência à opressão e ao terror do domínio total do regime, que nos leva a ceder e a tornar-nos parte. A fuga ao pesadelo passa pela denúncia do vizinho, que é reconhecida e estimulada pelos Senhores. A sequência das denúncias no filme leva o espectador ao riso, e, no entanto, será das sequências menos caricaturais. É a partir daqui que se escolhem os eleitos, aqueles que serão levados para "Saló". Os que olharam o abismo e a quem o abismo devolveu o olhar. 

No fundo, as atrozes orgias, poderiam não passar de um concurso, cujo prêmio são "umas férias de sonho", algures, ligeiramente mais atroz daqueles que o regime nos oferece, mas em que ainda podemos rejeitar a participação. Simplesmente, as humilhações que se sofrem e as coisas que se comem, não são a troco da sobrevivência, mas de 15 ou 20 contos e de um reconhecimento público. 

Um dos filmes mais chocantes da história do cinema, esta característica cinematográfica foi feita aos poderes dominantes da Itália em uma catarse explícita e incômoda que vai muito além do campo das idéias, o impacto também é sentido no estômago. Realizado em 1975, por um agressivo Pier Paolo Passolini, Saló faz alegoria com a e história de vários jovens que sofrem o diabo nas mãos do poder. 


A partir de pesquisas em:

Adoro Cinema

Wikipédia



{W_[Amar Yasmine]}









27 de julho de 2017

ERA UMA VEZ UM GUETO

Dinossauros, uma espécie em extinção?

Quem acompanha o BDSM nas atuais redes sociais, que antes se restringiam às salas de bate papo do Terra, do UOL, as  listas do Yahoo, ou do Google, sabe que de vez em quando, aparecem divergências decorrentes das diferenças de opinião. São fatos, digamos..., sazonais, uma vez que voltam à tona de tempos em tempos.
O BDSM não é uma atividade monolítica em comportamentos e entendimentos. É plural e de certa forma mutável, mas sem perder a sua essência.


A partir dos escritos de Masoch e posteriormente Sade, surgiu o S&M, que evoluiu para o atual BDSM agregando outras nuances de comportamento e consequentemente de entendimento (se alguém souber quando isso aconteceu, por favor, informe). Aí surgiu o D/s, mas não bastava haver somente Tops e bottons para identificar posições/comportamentos, havia uma mescla destes, inicialmente ainda não classificada, que chamamos Switcher... , e tantas outras denominações foram criadas, por uma real necessidade, ou até por mero sofisma. Ainda assim e mais uma vez, a essência original permaneceu preservada.



Discutem-se assuntos diversos, como a questão SSC x RACK, o empréstimo de escravos (as), o BDSM sem sexo, BDSM e idade, a quase esquecida Ética BDSM, as posturas, etc. Discutimos até se a Podolatria é, ou não BDSM, e como não poderia faltar, discute-se a Liturgia; se o termo é, ou não aplicável no contexto BDSM, além das suas variações.

“Entendo que a Podolatria é uma prática fetichista que considero como expressão do BDSM, desde que no contexto D/s. Somente desta forma.
Quanto à Liturgia, ainda que tal palavra esteja arraigada como um jargão, digo que não me importa o nome que se de para a vaca (Liturgia, ou Protocolo), contanto que esta vaca de o leite; isto não descaracteriza em nada a prática do BDSM, nem fere preceitos. Respeito a quem utilize qualquer terminologia, desde que não descaracterize os princípios básicos. Muitas das discussões que vemos, são inócuas e acabam desaguando num mar de nada, configuram apenas um choque de “subjetividades frívolas” sem o menor senso prático; é como trocar seis por meia dúzia, pois se fala muito e chega-se a lugar nenhum".

Apesar disto, este bá blá blá, por vezes improdutivo, pode ser até saudável, aprende-se com as discussões e com a opinião alheia. O ideal seria que isso acontecesse numa ótica construtiva e de egos desarmados, algo que efetivamente agregasse, o que nem sempre ocorre. Por isso prefiro apenas observar e curtir os palpites de cada um. Tenho as minhas convicções, mas respeito a todos.
Nesta torre de Babel em que o BDSM se transformou, há uma questão que, de certa forma, apresenta-se com uma ênfase bem significativa, às vezes polarizando o nosso tão diverso meio. A questão do antigo e o novo; algo como Dinossauros VS teen age.
Isto nos remete ao choque entre um BDSM mais arraigado às tradições (para muitos, desnecessárias), com um novo segmento, bem mais “despojado”. Digamos algo mais espartano, em relação ao tradicional.
Muito do que era quase um padrão de comportamento e posturas vem se perdendo com o tempo. O problema não é a mudança em si, mas sim o esquecimento de quem um dia assim fez e o consequente desconhecimento por parte dos mais novos. Assim cria-se um hiato de conhecimento sobre como era o contexto BDSM e como é agora. Como alguém recém-chegado no BDSM pode desejar seguir um padrão mais tradicional, sem ter acesso a qualquer informação a respeito?
Conheço várias pessoas, no âmbito dos mais novos, que de alguma forma conheceram curtem este lado mais tradicional, com as Cerimônias, posturas, os códigos e tudo mais.


Isto não significa que um lado seja melhor do que o outro, são apenas formas distintas de entender e praticar o BDSM, o que não implica em desconhecer. O que realmente é o BDSM?
É neste ponto que se corre o risco de perder a essência e se descaracterizar o BDSM, transformando tudo numa simples versão diferente de sexo.
Antigamente era vedado às submissas tocar o corpo de seus Donos, nas plays a atitude correta era ser o mais discreta possível e dirigir-se somente ao Dono. Qualquer outra coisa, como falar e até um simples ir ao banheiro, só acontecia mediante uma autorização.
Hoje estamos perdendo a noção do que realmente significa “ser submissa (o)”. Submissa (o), no sentido original, não tem qualquer autonomia e muito menos contesta as decisões de quem lhe possui. Se assim age, que se invente outra nomenclatura para este comportamento. Não critico a ação, mas sim a definição.
Escrava (o) encoleirada (o), ou mesmo em negociação, era sempre respeitada (o) como propriedade de alguém, portanto intocável e “inassediável”. Além disso, os encoleirados não entravam em polêmicas, não discutiam, pois a coleira é a presença do Top e a este representa. Então, quem portava uma coleira sabia que representava um Domínio, uma Casa, um Top. Isto era motivo de orgulho, exaltação e respeito, porque o respeito é você quem faz e impõe, independentemente da sua posição. Então, a postura era primordial tanto para quanto para Tops, Switchers, e principalmente para os bottons. Havia sempre um grande senso de formalidade e elegância, que eram importantes fatores de “valorização”. As coisas não se restringiam somente à estética do corpo, especialmente para os bottons, então aquela turma que adora “fazer barraco”, era quase sempre preterida. Hoje tudo isso está num segundo plano, basta uma “voltinha” pelas redes sociais para constatar quão significativo é o fenômeno do esquecimento.


Por diversos motivos que não vale a pena citar, mas principalmente pela disseminação do assunto BDSM na mídia, há muito mais gente nova do que antiga no BDSM. Em qualquer setor da atividade humana sempre há e haverá a renovação, aqui não seria diferente Muitos dos Dinossauros de certa forma desapareceram; alguns realmente abandonaram o barco, mas há muitos que ainda estão na ativa, porém fora das redes sociais. Portanto, invisíveis.
É como se formassem guetos. É simples, já que o BDSM saiu do gueto, faz-se um novo gueto BDSM! Um gueto em que se preservem as ideias e os ideais BDSM!
Dinossauros não são exatamente as pessoas mais antigas, são na verdade, as ideias e o estilo que praticam, independentemente deste “sentido etário” que tanto apregoam.

Certos Princípios e Valores do BDSM estão sendo lentamente esquecidos. São diluídos, como se a cada dia pingasse mais uma gota da água do pragmatismo, que ao fim de algum tempo simplesmente apaga a essência... Descaracteriza mais que um movimento, uma subcultura*.
O problema é que no Brasil a grande maioria dos adeptos não entende o BDSM como uma subcultura. BDSM é muito mais do que uma simples prática de fetiches!

Sinceramente, penso que lidar com o BDSM significa, principalmente, lidar com nossa parte emocional, a parte física é apenas um meio utilizado para alcançar um propósito bem mais complexo. Só aqui, no mundo dessas quatro letras mágicas, podemos ser Donos de alguém e ter poderes irrestritos sobre cadelas e felinas humanas, escravas (os) e eunucos servis. Somente aqui há masmorras sombrias e Domínios onde a Dor e o Prazer se misturam em perfeita harmonia. Então quanto mais ingredientes você coloca nesta receita, neste caldeirão de bruxa, melhor e mais intenso será o resultado.
Conserve a sua essência!


* particularidades culturais de um grupo que se dista, ou diverge do modo de vida predominante, porém sem se desprender dele. 



Werther von AY erschaffen


16 de julho de 2017

A SANIDADE NA RELAÇÃO


Normalmente falamos muito sobre o SSC e as possíveis desagradáveis consequências para quem não se pauta por tal princípio; mas quando citamos estas letrinhas, nem sempre temos a real amplitude do seu significado. Para muitos o SSC restringe-se apenas à integridade física e a traumas emocionais profundos.
Há, entretanto, certas situações que se enquadram perfeitamente neste contexto apesar de nem sempre percebermos, talvez por serem mais abrangentes, o que as torna menos visíveis, ou palpáveis.
Poderíamos chamar de “o SSC da relação, do contexto, ou o lado light” do SSC.
Viver fetiches é uma questão de escolhas, aliás tudo na nossa vida passa por este “fazer escolhas”, o problema nem sempre está nestas, mas sim nas consequências daquilo que escolhemos fazer. A partir da escolha vivemos pelo menos três momentos distintos - o antes pode ser muito imaginativo e excitante, o durante pode ser realizador, e o depois pode ser bom, mas pode também significar algumas situações bastante desagradáveis...
Nem todo mundo responde da mesma forma às diversas práticas do BDSM, independentemente da posição assumida.
Há pouco tempo conversei com um casal de amigos, ele tinha um fetiche de voyeurismo e com o tempo começou a alimentar a ideia do Cuckold. Conversaram e como ela queria proporcionar a ele este prazer, partiram para a ação. Assim fizeram, mas depois disso ele passou a ter crises de ciúmes, a “Cornitude” passou a ser um peso para ele e o convívio entre os dois tornou-se bastante difícil. Durante um bom tempo ele não mais conseguia sequer beijar a namorada.


Tudo pode ser possível, mas nem tudo é aconselhável, especificamente em práticas que envolvam a degradação (Humilhação), ou aquelas que possam de alguma forma aludir a este sentimento. No caso em questão o feitiço virou contra o feiticeiro.
Alguém certamente dirá que isso é uma grande bobagem, mas a verdade é que isso acontece e quase acabou com uma relação até então “bem alicerçada” e longa.
Não basta ter a cumplicidade de fazer, é necessário ter uma cumplicidade de entendimentos, e entender a si em primeiro lugar.
Nessa brincadeira de adultos que vivemos é muito mais comum do que se pensa o fato de alguém estragar  (não exatamente lesionar) o seu brinquedo. Nem todo homem reage da forma imaginada quando o assunto é Strapon; dependendo da situação, isso pode funcionar como forma de humilhação, ou até como um prêmio. Para alguns homens o uso do Strapon pode ser altamente excitante, enquanto para outros algo momentaneamente broxante. Há também os que se veem irremediavelmente feridos em sua masculinidade e carregam este ônus por toda uma vida.


O empréstimo de escravas (os), nem sempre é possível, então, quando não devidamente abordado e trabalhado “haja empatia nestas horas” também pode colocar em risco o equilíbrio de uma relação.
Tudo tem lá as suas consequências, então tudo há de ser pensado, principalmente o depois. Inserir alguma prática nova na relação, por mais inofensiva que possa parecer, será sempre um passo no escuro.
Se você não tem uma “cabeça aberta”, principalmente para entender como pensa o outro lado, então não desça para brincar no playground... Mas, se descer, pense!


Werther von AY erschaffen

7 de maio de 2017

A IMPORTÂNCIA E O SIGNIFICADO DOS LIMITES



Há pessoas no BDSM que não suportam sequer ouvir falar em limites. Outras os acham desnecessários, algo do tipo... "meros sofismas"... Mas, os limites existem, têm uma função, e devem ser observados.

Normalmente, a primeira ideia que vem à nossa mente, quando citamos limites é a de uma barreira, u entrave à realização, ou ao intensificar de alguma prática. E digo limites de ambas as partes da relação, afinal os TOPs não são imunes a isso. Há situações em que o botton pede por uma intensidade maior e é o TOP que não consegue ir além, ou não concorda com a realização de alguma prática mais radical, como scat, por exemplo.

A diferença é que aos bottons é permitida uma safeword, e mesmo que em algumas ocasiões permaneçam em silêncio, o corpo muitas vezes fala e acusa o limite. TOPs não necessitam de safeword, afinal administram a tudo. Então, simplesmente param a cena e, se lhes for conveniente, explicam o motivo. Assim, limites são uma quase prerrogativa de quem se submete.




Limites são sempre saudáveis

Os limites, normalmente explicitados por uma safeword não são sinais de fraqueza, nem significam demérito, mas sim aquilo que pode ser feito agora e o que necessita ser trabalhado para o depois, ou seja, um ponto de definição entre o que é ou não lesivo à integridade da peça. Podem também demonstrar o momento que a "coisa" descamba para o lado abusivo.

Conhecer a parte submissa é conhecer também os seus limites. Superá-los faz parte do crescimento de qualquer relação e do aperfeiçoamento de quem se submete. Limites são um ótimo indicativo de poder, afinal Dominar não significa exatamente "mandar", nem submeter-se significa estritamente "obedecer".

Dominar é exercer o poder ofertado e, a partir deste, fazer com que a parte submissa supere as espectativas e seus limites, sem que isso seja ordenado. Na verdade,  quem se submete, o faz em relação a si, ao seu tesão e desejo de ser dominado, dobrado, moldado, pervertido.

Dominar é conquistar a vontade do botton e assim faze-lo desejar uma pressão cada vez maior. Quanto mais pressão, mais tesão, mais realização e mais prazer.
Por outro lado, quem se submete faz uma "oposição construtiva", instigando o tesão do TOP em Dominar. O botton chama sobre si a Dominação por puro tesão em ser assim tratado.




Não obstante o poder concedido, há no D/s uma constante troca de "tesões", que nem sempre é percebida, mas existe e é o combustível da relação. Um se alimenta do tesão do outro e instigam-se mutuamente.

A submissão verdadeira existe pelo tesão em submeter-se, mas para isso é necessário tesar a quem Domina e é esta que faz o tesão do Domínio.
A isto chamo D/s. A própria grafia "D/s" mostra que a base desta relação, o chão que sustenta o Domínio, é a parte de baixo. Então , respeite os limites dos seus alicerces.


Werther von AY erschaffen




3 de fevereiro de 2017

ENTREGA, SUBMISSAS (OS) E RÓTULOS...

Entrega
Para muita gente este ato, tão corriqueiramente aludido no BDSM e, por vezes motivo de polêmica, encerra somente e erradamente a ideia de curvar-se e aquiescer às vontades e desígnios de outra pessoa no âmbito de uma “passividade”. Justamente por ser entendida, ou confundida com a passividade, a entrega é um fato frequentemente mal entendido. Entrega é atitude.
Pior do que isto, deste mal entendido, é quando não ha á percepção do que acontece. É o mesmo que dar pérolas aos porcos!
Se não houver um mínimo de empatia, se você não entender o “outro lado”, o barco afunda e aí o comandante se fode.
A Entrega é acima de tudo a resultante do desejo, da vontade (ação) de submeter-se, servir, ou de pertencer a alguém, mas somente isso não configura entrega. A entrega real só acontece quando há passionalidade. Por que não há Dom, ou Domme, com o poder de fazer isso acontecer exclusivamente por sua vontade. Este tipo de Dominante, o popular fodão, só existe nas páginas, ou nos filmes de romances e ficção.
Submissos tem personalidade
A Entrega é sempre consciente, não importando a forma como seja representada, afinal o BDSM não é para pessoas sem noção.
Submissos são pessoas dignas de todo o respeito, não apenas daqueles a quem pertencem, mas de toda a comunidade BDSM. Submissos obedecem, mas também pensam, agem e reagem, desobedecem, insinuam e manipulam. Isto não inviabiliza a entrega e faz parte do que é ser humano. 
Não existe uma receita, ou fórmula para a submissão perfeita, se assim fosse, não haveria o menor sentido na Dominação.
Por que se fossem como inertes bonecos, que você põe num canto e nada fazem, a relação resumir-se-ia somente à ação e consequentemente a um exercício de loucura. Em alguns casos, já vi muitos, se o Dom, ou a Domme, bobear... vira marionete!



BDSM é como jogar Xadrez: É para quem pensa
Aí está a graça de tudo, este é o jogo. Sempre foi assim independentemente de qualquer denominação, ou rótulo, pois o que caracteriza a submissão de cada um é o seu, comportamento, a sua personalidade, e não qualquer nome, ou tipo que se possa atribuir.
Nem sempre quem se diz é o que verbaliza. Mas quem é, ainda que nada fale, sempre será reconhecido. A vaidade às vezes cega.



Werther von AY erschaffen

7 de janeiro de 2017

A IMPORTÂNCIA DA MATURIDADE

Grande parte das pessoas associa maturidade com a idade adulta e isso nem sempre é verdadeiro; justamente por este motivo é que não entendo o BDSM simplesmente como um “jogo”, mesmo um jogo para pessoas adultas. BDSM é uma atividade (e não gosto da expressão jogo) para pessoas maduras, por envolver ligações muito mais complexas do que mandar, foder, amarrar, ou bater. O BDSM transcende o físico e o emocional, BDSM é energia com sinergia.


Ser maduro não significa crescer e tornar-se adulto, porque a maturidade não necessariamente caminha par e passo com a cronologia da vida. O maduro é consequência, é a evolução do adulto.

Maturidade não é mérito, assim com a sua falta não sinonimize o demérito. É uma condição que decorre de experiências, observações e reflexões que acumulamos ao longo da vida, portanto, demanda tempo para que chegue ao seu Tempo. Ser maduro é ter a inteligência e domínio sobre as emoções, é saber lidar com o sucesso e com as inevitáveis frustrações e contrariedades da vida.

Um exemplo bem conhecido e aplicado de Maturidade no campo emocional é a tão falada Inteligência Emocional que a tantos adultos inteligentes enrola e derruba quando aspiram uma colocação no mercado de trabalho.

Maturidade é ter a consciência nua e crua do Eu, do que se é realmente e, a partir daí analisar e definir o que se quer e como se quer. É ser honesto consigo.
Isso permite ter uma noção muito mais clara virtudes, das falhas e, também das responsabilidades que temos quando nos relacionamos com alguém. Só então é possível decidir novos rumos, realizar as escolhas certas e talvez definitivas.

Falo por mim.
Se tenho a real noção dos meus Fetiches (riscos e responsabilidades), que rotulo como a minha insanidade sã; então posso procurar alguém com um perfil que se encaixe ao meu. Assim o digo porque imagino como relação ideal aquela em que as partes são como peças de um quebra cabeças, o encaixe é perfeito, sem tirar nem por.


Depois de vagar um bocado nos caminhos e descaminhos do BDSM finalmente encontrei em Amar Yasmine a total correspondência e reciprocidade às minhas expectativas e visão de um D/s litúrgico, onde a entrega é total, uma relação D/s repleta de perigos, magia e sensualidade.
Era a peça que faltava!



SENHOR WERTHER VON AY ERSCHAFFEN 

3 de janeiro de 2017

OS 50 TONS DE COISAS RUINS.


Um tema que tornou-se recorrente, não somente no Facebook, como em todos os espaços das redes sociais, voltados ao BDSM, é a questão do livro e posterior filme “Os 50 tons de cinza”. Particularmente tenho lá as minhas reservas à obra, mas respeito, por entender ser, também, um exercício da liberdade de opinião de quem escreveu.

Opinião e bunda, cada um tem a sua...

Independentemente do livro, há também, de minha parte um silencioso protesto contra a exposição e disseminação excessivas do BDSM, por entender que mostra-se, muitas vezes, justamente o que grande parte da sociedade critica. A esmagadora maioria das citações ao BDSM, na mídia, tem caráter sensacionalista, um apelo puramente focado na violência e no sexo, ou então no noticiário policial.
BDSM não é pornografia!

Assim jamais será possível sonhar com a retirada das quatro letrinhas da lista de anomalias do CID 10!!!

Não acho que mostrar o BDSM, pelo menos da forma com se faz atualmente, e novamente aludo ao livro, encoraje e faça qualquer BDSMer “enrustido” a sair do armário. Que armário!?

Cada um tem lá o seu tempo de refletir e amadurecer suas ideias; não é um livro que vai trazer a lucidez para tal.

O fato de alguém assumir e praticar o BDSM, não significa que tenha que sair alardeando aos quatro cantos do mundo esta sua preferência.

Toda esta parafernália para “mostrar” o BDSM, vem causando, há bastante tempo uma cisão entre os adeptos. Criaram-se então, verdadeiros nichos de pessoas avessas à participação desde as saudosas listas, ao Facebook e congêneres.

Pessoas que desejam um BDSM “hermético”, sem a presença de especuladores, ou de quem quer apenas um sexo diferente, sem os curiosos, ou de quem ainda não se definiu entre o ser e o não ser.

Infelizmente, nas redes sociais, não é possível evitar coisas do tipo as mensagens de alguns babacas em que se vê uma bunda, ou um pênis, como se pudessem exprimir alguma coisa, ou pseudos Dons se insinuando para escravas encoleiradas, etc.

É justamente por conta dessa bagunça, dessa invasão de pessoas que nada tem a ver com o BDSM, pois falta-lhes seriedade, que permaneço fiel à premissa de que o BDSM não deve ser tão “democratizado” com tem acontecido.

Até quando conseguiremos não fugir para um nicho!?


                                                     Werther von AY erschaffen